Contra um Mundo Melhor (Pondé, Luiz Felipe - 2013)
Prefiro os antigos
Em matéria de sentido, prefiro os antigos: Deus, a fidelidade, a castidade, a culpa, a disciplina, a família, o medo, Shakespeare, a Bíblia, a Ilíada.
Rejeito todos os novos sentidos: a democracia como religião moderna, a revolução sexual, que não passa de puro marketing de comportamento (continuamos a mentir sobre o sexo e a ser infelizes), a sustentabilidade (nova grife para o ambientalismo), a cidadania, a igualdade entre os homens, uma alimentação balanceada, o fascismo dos direitos humanos, enfim, tudo o que os idiotas contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano.
O ceticismo (que, quando se instala em alguém como um modo da respiração, como em mim, ganha força de uma segunda natureza) não se delicia tanto em torturar almas religiosas, mas sim encontra seu maior gozo em humilhar almas científicas, racionalistas e bem resolvidas.
[…] história dos últimos séculos nos provou que,
quando deixamos de acreditar em Deus, sempre acabamos acreditando em qualquer bobagem como “História, natureza, ciência, energias, política, em si mesmo, tanto faz” (Chesterton, no começo do século XX).
Para mim, Deus permanece uma ideia mais elegante.
As massas com diplomas
O grande escritor pernambucano Nelson Rodrigues costumava falar que vivemos numa época dominada pelos idiotas. Quem são esses idiotas? Como reconhecê-los? O que eles costumam falar? Antes de tudo, eles são maioria esmagadora e, como a democracia é um regime fundamentado na maioria, são vencedores pela simples força numérica. A luta contra os idiotas é uma batalha perdida. Falam demais. Acreditam que, apenas porque têm boca, podem emitir opiniões sobre tudo.
Como viraram engenheiros e médicos e professores, porque o “conhecimento” virou ferramenta de ascensão social, hoje os idiotas têm diplomas.
Mais um dos danos da sociedade do “acesso” em que todo mundo tem “acesso”, na qual quase não há conteúdos que valham qualquer “acesso”. A maioria da humanidade sempre foi ignorante (nascia, reproduzia e babava na gravata, como dizia Nelson), mas, com o advento da sensibilidade democrática para o número e a estatística, essa maioria tomou a palavra. Toda a “ética” democrática é voltada para a banalização do conhecimento a serviço da autoestima dos idiotas. Não os ofenda porque eles venceram.
Já o filósofo espanhol Ortega y Gasset falava da miséria das massas nas universidades, transformadas em praças de técnicos que confundiam diploma com formação, fossem eles professores ou alunos.
Segundo o que nos dizem os especialistas sobre o Renascimento, é nesse período que começa a surgir a ideia de que todos somos indivíduos. Movidos pelos avanços da ciência e pela ampliação da circulação dos livros, os burgueses, esses amantes da competência individual contra a herança aristocrática de sangue, pregam a virtude individual como experiência histórica total. De lá para cá, a moda de todo mundo ser indivíduo gerou, na realidade, grande inveja e ódio por quem de fato é indivíduo e suporta a solidão de sê-lo. Além do mais, a mídia e a arte vendem modelos de individualidade nas liquidações de material de autoajuda, infestando o mundo de idiotas ruidosos enquanto os verdadeiros e infelizes indivíduos se escondem pelas florestas das cidades, como uma espécie caçada, em extinção.
Amor universal
Quem diz que amar é querer “o bem de quem ama” é porque nunca amou. Amar é querer o outro para si ou querer que o outro deixe de existir. Isso é “querer comer” o outro. Respeitar a mulher, nesse caso, é entregá-la na mão de outro homem. Porque ela quer é ser desrespeitada, esse é o sentido de dizer, como dizia o Nelson Rodrigues, que “toda mulher (as normais) gosta de apanhar”. A intimidade só existe quando há invasão do outro.
Acho muito engraçado quando os arautos da chamada “ética da alteridade” (o respeito ao “outro” como pilar das relações humanas) querem contaminar a promiscuidade da vida sexual e amorosa com esse papo de respeito ao outro. Quando você respeita o outro, é porque já ficou indiferente a ele. Quando amamos e desejamos, violamos. E ela pede mais.
O mundo melhor com o qual os idiotas sonham é um mundo sem amor e sem desejo.