[book] A Sociedade do Espetáculo 2020-11-03

Os espectadores não encontram o que desejam; eles desejam o que encontram.

– Guy Debord

Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distração de ir ver o que se tornou banal. A ordenação econômica da frequentação de lugares diferentes é já por si mesma a garantia da sua equivalência. A mesma modernização que retirou da viagem o tempo, retirou-lhe também a realidade do espaço.


É em tais condições que se pode ver desencadear repentinamente, com um gozo carnavalesco, um fim paródico da divisão do trabalho; tanto melhor recebido quanto coincide com o movimento geral de desaparecimento de toda a verdadeira competência. Um banqueiro canta, um advogado torna-se informador da polícia, um padeiro expõe as suas preferências literárias, um ator governa, um cozinheiro filosofa sobre os momentos de cozedura como marcos na história universal. Cada qual pode surgir no espetáculo a fim de entregar-se publicamente, ou por vezes para dedicar-se secretamente, a uma atividade completamente diferente da especialidade pela qual inicialmente se deu a conhecer.

Lá onde a posse de um «estatuto midiático» alcançou uma importância infinitamente maior que o valor daquilo que se foi capaz de fazer realmente, é normal que este estatuto seja facilmente transferível e confira o direito de brilhar, da mesma maneira, seja onde for.

Mais frequentemente, estas partículas midiáticas aceleradas perseguem a sua simples carreira no admirável estatutariamente garantido. Mas acontece que a transição midiática faça a cobertura entre muitas empresas, oficialmente independentes, mas de fato secretamente ligadas por diferentes redes ad–hoc. De modo que, por vezes, a divisão social do trabalho, assim como a solidariedade normalmente previsível do seu uso, reaparece sob formas completamente novas: por exemplo, hoje em dia pode publicar-se um romance para preparar um assassinato. Estes pitorescos exemplos querem também dizer que já não se pode confiar em ninguém pelo seu ofício.


Cada vez que me vejo aprovado por pessoas que deviam ser meus inimigos, pergunto–me que erro cometeram eles nos seus raciocínios.