O Administrador deu de ombros.
— Porque é antigo; essa a razão principal. Aqui não queremos saber de coisas antigas.
— Mesmo quando são belas?
— Sobretudo quando são belas. A beleza atrai, e nós não queremos que ninguém seja atraído pelas coisas antigas. Queremos que amem as novas.
— Sem dúvida. Mas esse é o preço que temos de pagar pela estabilidade. É preciso escolher entre a felicidade e aquilo que antigamente se chamava a grande arte. Nós sacrificamos a grande arte.
— Mas eu gosto dos inconvenientes.
— Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
— Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
— Em suma, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
— Pois bem, que seja — retrucou o Selvagem em tom de desafio. — Eu reclamo o direito de ser infeliz.
— Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.